sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Cristão???







Eu sou um cristão.

Na verdade, recentemente, seria mais correcto afirmar que

 "eu ainda sou um cristão".

Agora, eu digo isso com muito tremor. Digo-o com grande fadiga. E até mesmo um pouco a contragosto. Digo-o com mais do que uma boa dose de vergonha, não de Jesus, mas de muitos do seu povo e de tantos da Igreja que afirmam falar por ele.

Olhando em volta, muito do que representa a minha tradição de fé, particularmente nesta época de eleições, tornou-se numa batalha diária fazer esta declaração, que antes era dita sem esforço, sabendo que agora esta me alinha automaticamente com aqueles que compartilham tão pouco em comum com o Jesus que eu conheci, quando aleguei pela primeira vez ter o nome de cristão.

Ele agora alinha-me com os provocadores de casas-de-banho(1), púlpitos politizados, defensores do privilégio-branco, do racismo e da intolerância, para com tantos grupos de pessoas que representam o "mundo" que eu cresci acreditando que Deus amou.

Há coisas que costumavam ser um dado adquirido de um seguidor de Jesus, não são mais.

Para demasiadas pessoas, ser um cristão não significa que você precisa de ser humilde ou perdoar. Já não significa que você precisa de um coração para servir ou trazer cura. Já não exige compaixão, misericórdia ou benevolência. Já não exige que você vire a outra face ou ame seus inimigos, tome o lugar mais baixo ou ame o próximo como a si mesmo.

Já não requer Jesus.

E assim, as opções são: abandonar a ideia de reivindicar Cristo por completo, para evitar ser considerado "odioso por associação" aos olhos de grande parte do mundo que assiste a isto; ou recuperar o nome cristão para que ele represente uma vez mais, o amor de Jesus no mundo .

Eu estou tentando fazer o último.

Sim, eu sou um cristão, mas há um tipo de cristão que eu me recuso a ser.

Eu recuso-me a ser um cristão que vive com medo de pessoas que parecem, falam, ou fazem um  culto de forma diferente do que eu.

Eu recuso-me a ser um cristão que acredita que Deus abençoa a América (ou o um país em particular), mais do que Deus ama o mundo.

Eu recuso-me a ser um cristão que usa a Bíblia para perpetuar intolerância, racismo ou sexismo, individual ou sistémico.

Eu recuso-me a ser um cristão que valoriza lealdade a uma bandeira, ou a um país, ou a um partido político, acima de imitar Jesus.

Eu recuso-me a ser um cristão relutante em denunciar as palavras de pregadores do ódio, políticos venenosos e aquecedores de cadeiras maldosos, em nome de manter a unidade dos cristãos.

Eu recuso-me a ser um cristão que tolera uma Igreja global, onde nem todas as pessoas são bem-vindas de braços abertos, totalmente celebradas e igualmente cuidadas.

Eu recuso-me a ser um cristão que fala sempre com retórica de "guerra santa" sobre uma horda inimiga invasora que deve ser enfrentada e derrotada.

Eu recuso-me a ser um cristão que é generoso com a condenação e mesquinho com graça.

Eu recuso-me a ser um cristão que não consegue ver a imagem de Deus em pessoas de todas as cores, tradição religiosa, ou orientação sexual.

Eu recuso-me a ser um cristão que exige que outros acreditem no que eu acredito, ou a viver como eu vivo, ou a professar o que professo.

Eu recuso-me a ser um cristão que vê o mundo numa espiral descendente e sem esperança, e só pode condená-lo ou retirar-se dele.

Eu recuso-me a ser um cristão desprovido do carácter de Jesus; sua humildade, compaixão, sua gentileza com as feridas das pessoas, sua atenção aos pobres, esquecidos e marginalizados, a sua intolerância para com a hipocrisia religiosa e da sua expressão clara, do amor de Deus.

Eu recuso-me a ser um cristão a menos que isso signifique viver como uma pessoa da hospitalidade, da cura, da redenção, da justiça, da expectativa que desafia a graça, do amor intuitivo. Estes valores não são negociáveis.

Sim, é muito mais difícil dizê-lo nos dias de hoje, do que jamais foi... mas eu ainda o digo.

Eu ainda sou um cristão, mas eu recuso-me, a ser um sem Jesus.



JOHN PAVLOVITZ

traduzido e adaptado por Paulo Anselmo

(1- Em alguns estados nos EUA, alguns cristãos impuseram uma lei, que cada pessoa apenas deve usar o WC publico, segundo o géneros sexual com que nasceu)


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