terça-feira, 24 de junho de 2014

A verdadeira sabedoria do sacrifício na Vida


A essência da sabedoria é o temor a Deus!
Então e o que é o temor a Deus? Será o medo de Deus?!
Não não! Veremos que sabedoria não é apenas duvidar e querer reconhecer ignorância como Sócrates dizia, duvidando e duvidando, analisando e analisando tudo. Isso é o inicio do processo, e Sócrates sabia-o. Sabedoria é mais que duvidar e questionar, que são coisas importantes mas incompletas, são apenas o inicio, o levantar daquele que quer buscar sabedoria.
Devemos duvidar e inquirir, mas não duvidar e inquirir apenas como eternos cépticos relativistas. Devemos duvidar com coragem e vontade de achar a Verdade, doa o que doer, seja o que for. Devemos procurar para achar e não apenas procurar, demandar, sem verdadeiramente desejar encontrar.
Sabedoria é o temor a Deus! Mas em que consiste o temor a Deus se não é medo de Deus?!

Vejamos em Abraão que é o pai da fé, o que é o temor a Deus, como Abraão temeu a Deus e no que consiste tal temor de Deus.

Diz-se que Abraão saiu de sua terra natal pela fé e peregrinou pela fé. Sabemos também que sua fé foi crescendo e que por vezes vacilou, tentando fazer as coisas na sua força e não crendo simplesmente na promessa do favor imerecido de Deus. É que quando é de graça, nós desconfiamos e nossa vaidade incomoda-se, simplesmente desconfiamos, porque nesta vida e universo físico e material, tudo parece ter um preço e tudo parece ter causa e efeito.

Abraão sonhava ter um filho de sua amada e tal sonho era promessa de Deus.
Mas humanamente, material e fisicamente falando, tal sonho era impossível, pois sua amada era estéril.

Então Abraão tentou ajudar Deus, tentou fazer sua parte, no fundo tendo alguma duvida de que Deus pudesse fazer algo completamente de borla, sem causa e efeito material, dar-lhe um filho sem óvulo.
Fez asneira e Deus relembrou e prometeu que lhe daria o filho de sua amada.
Abraão duvidou várias vezes que Deus o pudesse fazer e por isso tentava fazer da sua maneira.
Abraão é um herói da fé, mas teve de aprender sua fé. Sua fé cresceu processualmente.

Mais tarde, quando alem de não haver óvulo de Sara, também já não havia em Abraão espermatozóide, ou seja, quando ambos e não apenas Sara, eram irremediavelmente estéreis do ponto de vista físico, material, cientifico, então aí Deus fez sua obra. O filho de Abraão era inteiramente filho de sua fé, ainda que Deus usou seu adn e de Sara, seu filho Isaque não foi gerado pela performance e fertilidade de ambos; mas em vez disso Isaque foi gerado exclusivamente pela performance de Deus, vivificando o adn de ambos e tornando-os miraculosamente férteis.

Finalmente quando Sara engravida, o pai Abraão descansou e aprendeu que Deus faz e cumpre sua promessa pela sua graça, imerecidamente, sem créditos nossos, na nossa incapacidade.
Abraão teve de crer na graça que transcende todo o universo das causas e efeitos.
Abraão tornou-se amigo dAquele que é Criador do universo, mas que o transcende e traz sua transcendência até nós, pela sua graça, transcendendo todas as leis de causa e efeito.

Finalmente Abraão crera na promessa de Deus. Finalmente Abraão conhecera o Deus da graça transcendente.
Tudo o que ele teve de fazer foi descansar, mas não descansou enquanto havia nele força, energia, capacidade.

Finalmente Abraão crera no Evangelho, sim, Paulo afirma aos Gálatas que a Abraão foi primeiro pregado o Evangelho da graça de Deus. E foi. De graça, mediante a fé, foi-lhe dado seu sonho, do qual viria o Messias, a plenitude da transcendente, louca e radical graça de Deus.

Mas o processo de Abraão conhecer a Deus ainda não havia terminado. Faltava conhecer mais de Deus e tornar-se um homem sábio.

Quando seria isso?

Ora a sabedoria é o temor de Deus, de forma que Abraão tornou-se sábio quando temeu a Deus!

Quando é que Abraão temeu a Deus?

Ora, Abraão temeu a Deus quando mostrou a si mesmo, a todas as potestades e anjos e a seu filho, que era capaz de sacrificar seu filho amado e tão intensamente desejado, a pedido de Deus!

Vejamos a passagem a fim de vermos depois em que consiste este temor de Deus! E lembro, não é medo e afirmo que também não é barbárie ou estupidez!

E aconteceu depois destas coisas, que provou Deus a Abraão, e disse-lhe: Abraão! E ele disse: Eis-me aqui.
E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi.
Então se levantou Abraão pela manhã de madrugada, e albardou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus moços e Isaque seu filho; e cortou lenha para o holocausto, e levantou-se, e foi ao lugar que Deus lhe dissera.
Ao terceiro dia levantou Abraão os seus olhos, e viu o lugar de longe.
E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e havendo adorado, tornaremos a vós.
E tomou Abraão a lenha do holocausto, e pô-la sobre Isaque seu filho; e ele tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e foram ambos juntos.
Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos.
E chegaram ao lugar que Deus lhe dissera, e edificou Abraão ali um altar e pôs em ordem a lenha, e amarrou a Isaque seu filho, e deitou-o sobre o altar em cima da lenha.
E estendeu Abraão a sua mão, e tomou o cutelo para imolar o seu filho;
Mas o anjo do Senhor lhe bradou desde os céus, e disse: Abraão, Abraão! E ele disse: Eis-me aqui.
Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho.
Então levantou Abraão os seus olhos e olhou; e eis um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato; e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho.
E chamou Abraão o nome daquele lugar: o Senhor proverá; donde se diz até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá.

Génesis 22:1-14


Então, o anjo do Senhor diz que apesar da fé em crescendo e madura de Abraão, apenas se percebeu que Abraão temia a Deus quando estivera disposto a sacrificar seu filho?! Mas porque é que estava Abraão disposto a  sacrificar seu filho tão amado e desejado de tão bom-grado, temendo assim a Deus? No que consiste esse temor de Deus para que Abraão esteja tão radicalmente predisposto a obedecer a Deus?

A resposta está na epístola aos Hebreus, onde fala da essência da fé de Abraão no momento em que temeu a Deus a ponto de estar prestes a sacrificar-Lhe seu filho:

Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigénito.
Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar;
E daí também em figura ele o recobrou.

Hebreus 11:17-19


Então, na epístola toda inspirada ao Hebreus, aprendemos que Abraão estava disposto a temer a Deus sacrificando seu filho. Vemos também que estava disposto a tal porque CONSIDEROU que Deus era poderoso até para dos mortos o ressuscitar.

Sim, Abraão não foi leviano nem bárbaro, pois sabia, conhecia, entendia, raciocinava, que o Deus que era seu amigo e a quem por isso conhecia na intimidade, era capaz de ressuscitar seu filho. Ora a palavra para CONSIDEROU no grego da epístola aos hebreus, é a palavra LOGIZOMAI, que vem da palavra Logos, que quer dizer: entender, saber, conhecer, raciocinar, considerar, constatar, etc...

Então Abraão não teve medo, o seu temor era exactamente o oposto de medo, pois se tivesse medo é porque pensaria que seu filho morreria irremediavelmente e nesse sentido seria bárbaro, perverso e estúpido em matar seu filho amado.

Abraão sabia e conhecia a Deus na intimidade, partilhara com Ele seus sonhos, suas fraquezas, sua intimidade conjugal, tudo o que lhe era mais visceral na existência. Abraão tinha um relacionamento de amizade profundíssima com Deus, intensamente intimo de Deus.

Abraão sabia que seu amigo Deus era capaz de ressuscitar seu filho, não apenas em poder, mas em vontade, pois se Abraão julgasse que Deus tinha poder, mas não vontade amorosa de lhe devolver o filho, teria medo.

Abraão conhecia agora o poder do Amor de Deus.

Fruto de sua caminhada, de seu abatimento, de seu esvaziamento, sempre em relação intima com Deus, mediante as falhas e acertos, mediante a intimidade e alma totalmente partilhada com seu amigo Deus; Abraão sabia que seu Amigo era Amor, realizava seus sonhos, de graça, de forma imerecida.

O caminho da fé de Abraão foi feito de acertos e de muitos erros, na presença de um Perfeito que ele veio a descobrir que é Amor, e cheio de paciência.

Este é o momento mais glorioso de Abraão no sentido da manifestação heróica maior de sua fé: o sacrifício de seu filho Isaque.

Não duvidem, foi neste momento profundamente intimo na mente de Abraão, com Deus, que Abraão viu a glória de Jesus Cristo.

Sim, lembrem-se que Jesus afirmou que Abraão viu sua Glória.
No seu momento de maior fé e intimidade com Deus, quando precisou de radicalmente crer no Amor de Deus, depois de já o ter experimentado, quando já usufruía do presente e dádiva de Deus maior em sua vida, quando Abraão decide amar a Deus dando-lhe o bem maior que tinha: seu filho; sabendo que o recebera de Deus, e que na verdade não era seu bem mas sim um filho muitíssimo amado, nesse momento, Abraão experimentou e manifestou o amor que Deus tem por nós.

Sim, Abraão foi capaz de dar seu filho como prova de amor. Deus deu seu Filho como prova de seu Amor. O Filho, Jesus Cristo, deu sua vida como prova de amor maior e sublime.

Quando finalmente Abraão amou a Deus de forma semelhante á de como Deus nos ama, então Abraão viu a glória de Jesus, experimentou seu Amor e do Pai, vendo o dia em que Deus manifestaria tão grande amor preparado para ser revelado antes da fundação do mundo.

Sim, Abraão não amou a Deus primeiro, pois Deus já nos criou debaixo da égide do Amor que quer ter filhos e está disposto de antemão a se sacrificar por seus próprios filhos. O Cordeiro preparado antes da fundação do mundo.

Pela fé, Abraão experimentou o amor de Deus por nós, dar o seu melhor, o seu filho amado.

Jesus -  Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se.
Disseram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão?
Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, Eu Sou.

João 8:56-58


Abraão sabia que o dom de amor ressuscita. Considerou que Deus ressuscitaria o dom de Amor maior.
Deus Pai deu o Filho, sabendo que o ressuscitaria.
O Filho deu a vida sabendo que ressuscitaria, afirmando que ninguém lhe tirava a vida, mas antes Ele voluntariamente a oferecia, tendo tal mandamento e missão do Pai, sabendo que a recuperaria.

Então Abraão viu a glória de Jesus Cristo naquele momento daquela experiência louca, em intimidade, soube e conheceu no intimo, que Deus proveria o Cordeiro de Verdade que não era Isaque. Abraão viu o Calvário. Abraão viu sobretudo o Amor eterno, viu a cruz, viu o Cordeiro imolado antes da fundação do mundo.

Abraão tornou-se sábio, pois temeu a Deus, ou seja, obedeceu a Deus de forma radical, conhecendo que amar a Deus é dar tudo, é dar nosso melhor, é sacrificar o que de melhor temos, ofertando-o a Ele, sabendo que é dom da graça, é algo que no fundo não é nosso, pois é algo que veio dEle, e por ser da graça, ainda que o queiramos sacrificar, Ele devolve-nos. Abraão aprendeu-conheceu a graça transcendente de Deus e deixou de apenas a receber e usufruir e passou a oferta-la também, sabendo que tal oferta sabe a sacrifício; ainda que é ilusão esse sentimento sacrificial, pois Deus devolve-nos o que Ele mesmo nos deu e nós apenas temos de sacrificar para aprender a manifestar que somos capazes de amar de verdade.

Abraão ia obedecer a Deus sacrificando seu filho, ou seja, Abraão temeu a Deus obedecendo, porque sabia que Deus é Amor e que merece nosso amor maior e que com Ele nada se perde, tudo se ganha, de graça, imerecidamente.

Abraão estava disposto a dar o seu melhor a Deus. Abraão estava capaz de amar loucamente como Deus, para alem da ética do bem e do mal, mediante o absurdo da transcendência da graça.

Abraão temeu a Deus porque ia dar seu melhor. Abraão temeu a Deus porque estava disposto a amar radicalmente.

Tal amor radical não é insane nem louco, pois ele sabia que seu filho viveria.

Então temer a Deus é conhecer o amor eterno vivificante de Deus e ser capaz de o manifestar.

Sendo assim, SABEDORIA,  é conhecer o Amor de Deus e só se o conhece contemplando o Amor de Deus na cruz, a loucura de amor de Deus por nós, a dor do sacrificar por amor, mas não sacrificar em vão, antes é sacrificar em dor, mas sabendo que o Amor a todos ressuscitará para o relacionamento do Amor eterno.
Por isso é um sacrificar sem medo, é um viver sem medo, pois a vida de todos demanda sacrifício, todos morreremos e todos vivemos sendo fisicamente sustentados por sacrifícios inúmeros de inúmeras mortes.
Existir é sacrificar e finalmente todos morreremos e seremos sacrifício para nutrir outro seres, mesmo que não queiramos.
Todos vivem usufruindo fisicamente de sacrifícios de seres vivos que morrem e nutrem os que lhes sucedem. Todos morremos, todos seremos sacrifício.
Afinal a própria vida é feita de sacrifícios involuntários, inevitáveis e imprescindíveis. A questão é que o Homem quer viver, mas não quer sacrificar e não quer sacrificar porque não quer morrer. O Homem tem medo da morte e do sacrifício, mas acaba geralmente por morrer involuntariamente cheio de medo. O Homem tem medo porque não conhece a ressurreição do amor!
Só o Homem com perfeito conhecimento do Amor-Deus lança fora todo medo.
Há muita gente que fala de amor mas tem medo da revelação da cruz onde está o verdadeiro amor que lança fora todo medo.
Lancemos fora o medo!
A vida, a história, é o tempo-espaço onde podemos conhecer tal amor, tal sabedoria, tal transcendência.
Temer a Deus é ser sábio e ser sábio é conhecer que Deus é amor e que nEle devemos e podemos amar.

J.P. Maia, a 23 de Junho de 2014, ainda no processo de aprender a amar como Deus, ainda no processo de esvaziar, ainda no processo de conhecer a graça, ainda no processo de subir ao monte onde o Senhor proverá e temê-lo no mais profundo das entranhas...

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